Tempo não se Mata!







                                                                                                imagem: 123RF.com



Ir ao banco para mim é extremamente entediante. Acredito que para a maioria em geral também. Não fosse assim, não teriam criado tantas facilidades em aplicativos para que pudéssemos nos livrar dos inconvenientes das filas. No entanto, há momentos em que se faz necessário passar por todo aquele aparato de segurança. Despejar aparelhos de celular, todos os objetos de metal que tiver na bolsa. Fico imaginando quem tem marcapasso ou placas de platina substitutas de ossos! 
Uma fila para poder tirar dúvidas com a gerência, outra para fazer pagamento no caixa. Nessas operações já se foram mais de duas horas. Imagina, mais de duas horas de seu precioso tempo de vida gastas em filas massantes de banco. Para poder não desperdiçar todo esse tempo, ou puxo assunto com a pessoa ao lado, quando sinto que há empatia. Ou então, pego um livro de bolso para ler. Quando esqueço de levar livro, então fico revisando meu "HD" mental, faço backups. Visualizo minha agenda semanal, faço autoanálise, tento solucionar conflitos emocionais. Também gosto de observar o movimento ao meu redor. O jeito de trabalhar dos funcionários; o estilo de vestir e expressões dos clientes e usuários. 
      Desta vez não houve empatia com a pessoa ao lado. Não tinha livro na bolsa. Fiquei com aquela terceira opção. Comecei a perceber quem estava ansioso (a) para ser atendido. Um senhor atrás de mim abriu a matraca ligando para mais de metade dos contatos da sua agenda. Um outro dormia um sono profundo sentado na cadeira ao lado. Na porta de acesso restrito aos funcionários, era um entra e sai constante. Cada um com seu jeitinho de digitar o código de acesso a reservada área de trabalho. E eu a especular como seria lá dentro. Um salão com várias mesas ou então um corredor com algumas salas, uma copa e um banheiro. Uns a conversar amenidades depois do término de uma tarefa; outros a executar operações ao celular. Quem sabe até um pequeno espaço com poltronas reclináveis para um cesta após o almoço. Sabe-se lá o quê...
      No fluxo de pessoas a entrar e sair da fila, vejo chegar uma senhora de meia idade, vestida com calça e blusa estampada, de fundo verde-esmeralda. Após avaliar a quantidade de caixas com funcionários disponíveis, sentou-se na cadeira à minha frente. Observei a estampa de sua blusa. Recortes que lembravam colagens. Fotografias e imagens de revista com certa tendência vintage. 
Um dos recortes me despertou mais a atenção. Com aquela pose padrão de boca semiaberta e olhos querendo cerrar, esbanjando glamour e sensualidade, me deparo com a foto da Cindy Crawford. Quem tem menos de 30 anos, vai ter dificuldade de identificar quem estou citando. Vai logo ver no "Tio Google" de quem se trata.


      Pois então, aquela top model que arrasou na segunda metade da década de oitenta e início dos anos noventa do século passado. Farta de curvas, desbancou o padrão de beleza Twiggy (outra top que ditou moda nos anos sessenta) . Ali sentada, fui tomada por uma estranha melancolia. Via a fotografia esverdeada pelo tingimento do tecido,  a qual foi tirada há mais de trinta anos. Comecei a relembrar daquele momento histórico. Ao mesmo tempo que regressei ao sucesso da modelo. Embora ainda esteja realizando projetos, não tem a mesma atenção da mídia hoje em dia. 
Fiquei curiosa em saber por onde anda a Crawford?  Nessa roda gigante de celebridades e subcelebridades instantâneas,  as quais quase nem chegam aos quinze minutos de fama profetizados pelo tão pop Andy Warhol. Só por não estar mais em evidência e seu auge de sucesso fazer parte do passado, me fez cair numa espécie de saudade. Senti vontade que o passado retornasse e se fizesse presente. Não identifiquei o sentimento como nostalgia. Não julguei que os anos 80/90 fossem melhores do que esse fim década. Senti pena da Crawford não ser mais referência de beleza. E todas aquelas outras referências na música, cinema, literatura, etc. Quis que ela e toda efervescência daquela época tivesse se eternizado. Assim como foi com Napoleão Bonaparte, Elvis Presley, Marilyn Monroe, Picasso, Beatles  (rsss).
      Afinal, o que faz uma  figura que se  destaca  numa determinada época, continuar sendo projetada nas eras seguintes? Será que nosso tempo é capaz de produzir personalidades assim ou nesta era da pós-modernidade, moldada pela tal liquidez observada por Bauman, não é possível a aparição de figuras desse quilate? Nome fácil na boca do pessoal de Ciências Humanas, segundo este eminente sociólogo polonês, acontecimentos, ideias  e pessoas em evidência ganham os holofotes das mídias e redes sociais até chegar a saturação. Para, logo em seguida, evanescerem na ciranda de publicações incessantes, detonadas pelas ferramentas cibernéticas.

imagem: Famous People

      Entretanto, lá na hora da fila de banco, subitamente, de quem me lembrei mesmo para fazer frente ao evanescimento da fama da super model dos idos de noventa: Margaretha Geertruida "MargreetMacLeod,  conhecida pelo nome artístico de Mata Hari. A própria. Figura histórica exuberante que ainda hoje povoa o imaginário de escritores, intelectuais, cineastas e artistas em geral. Recentemente, o não menos famoso Paulo Coelho, dedicou sua criatividade e seu vocabulário a este ícone histórico. A bailarina holandesa, radicada na França e que "causou" no início do século vinte, veio também ocupar o terreno das minhas divagações. Para ela serve o ditado "morre o homem/a mulher, fica a fama". 
Comecei a cogitar por que Mata Hari, seu sucesso, seu deslumbre ainda é referência e inspiração. É como se ainda hoje, ela continuasse a ser celebridade. Se sua imagem aparece num vídeo do youtube ou serve de inspiração para romance de ficção, ela é revivida, ressurgida com a mesma força que foi enquanto de corpo presente em seu tempo de vida na terra. Será por conta do apelo exótico de sua beleza física e do seu estilo ímpar, inovador na dança? Por ser autônoma, dona de seu próprio nariz?Num tempo que isso chegava até a agredir a sociedade. Será por conta do trágico desfecho da sua história? Espiã, acusada de ser responsável pela morte de mais de 50.000 soldados na primeira guerra mundial! Depois de soltar um beijo, atingida pelas balas dos fuzis, tombando frente aos seus algoses, cai elegantemente, como uma verdadeira bailarina. Dali então, paradoxalmente, as ribaltas nunca mais se apagaram para ela.
Se naquele tempo essa mulher impressionava com sua exuberância inovadora, hoje continua a causar o mesmo impacto! Impressionante e misterioso sucesso eterno. Tanto quanto, Cleópatra, Tutancamon, Maria Antonieta, Einstein, etc. 
      Há mesmo uma extensa lista de celebridades que não morrem nunca e se fazem atuais. Se tornam motivo de silk screen, bonecos png, habitam museus de cera, são representados por atores atuais consagrados. Está certo que a Cindy Crawford foi vista por mim estampando uma blusa, como uma referência artística. Mas, com todo respeito e admiração ao seu trabalho, não sei se tem o mesmo peso histórico que a  personalidade por mim citada em paralelo nesta crônica. Mas sim, senti saudade da Cindy, e aí fui ao oráculo da nossa era, o "Tio Google''. Fiquei feliz em saber que ela continua sim na ativa, ainda que não tão evidenciada. Naveguei e aportei no seu web site, descobri que ela lançou um livro no ano passado com histórias e coletâneas de fotos daquele momento de seu auge de sucesso. Quando seu sinal sensual acima do canto do lábio superior se tornou seu maior sexy appeal.
      Agora, tendo em vista o conceito de liquidez de Zygmunt Bauman, me veio um insight. Aquela tal melancolia sentida por mim ao detectar a já antiga fotografia da super model norte americana, adveio da angústia de ser tudo hoje em dia tão efêmero. Difícil de prender nossa atenção, nossos afetos. Duas horas de espera em fila de banco para mim não poderiam ter sido em vão. Me recusei a ficar ali, passiva, só vendo a vida passar sem pensar em nada que me adiantasse. Não quis me deixar levar pela ansiedade de ter de esperar no longo espaço de tempo até chegar minha vez de ser atendida. Era muito tempo para ser desperdiçado. Alguma produção tinha que surgir daquele vazio, daquela lacuna temporal. Então, depois de todas essas elucubrações, tirei o celular da bolsa. E anotei em tópicos o que minha mente havia processado diante da tal blusa verde com estampa de colagem. Segundos depois de haver salvo no aplicativo minhas notas, meu número de ficha apareceu no painel eletrônico. Foi uma prazerosa sensação ao me aperceber incólume à demora do atendimento pelo serviço bancário. De ter tido, pelo menos naquela situação, inteligência emocional, para lidar com tédio e ansiedade, duas emoções tão afins. Ao realizar meu pagamento no caixa, estava com a alma leve. O que transpareceu quando cumprimentei o caixa lhe desejando bom dia. Ele retribuiu com simpatia, indagou polidamente se desejava mais algum serviço. Agradeci e me despedi lhe desejando bom trabalho. 
 É como dizia uma professora minha da época da graduação em Psicologia: Tempo não se mata, se vive!

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