O MUNDO ME ENGOLIU MAS EU O FIZ ME VOMITAR
Nasci franzina e fui muito assustada nos primeiros 24 meses de vida. Tinha medo e nojo do chão, por Isso, demorei a andar.
A terra, os pisos das casas, calçadas, paralelepípedos não me despertavam firmeza, achava que ia ser engolida pelos planos artificiais, construídos pela urbis.
As pessoas, além dos de casa, eram esquisitas. As achava tristes ou cansativas. Não gostava dos adultos.
Com o verniz social que meus pais me pincelavam na minha educação; com a escola, festinhas de aniversários e reuniões de família, as coisas foram transcorrendo para minha adaptação àquele estranho mundo.
Me tornei adulta e como é para ser — no pacto compulsório que se faz com o sistema — aceitei as coisas do mundo como elas são.
Ah há, só que não. Eis a minha peleja!
Porque sei que é uma ilusão que nos é imposta para criarmos um sentimento de acomodação e ao mesmo tempo, nos acharmos devedores de nós mesmos.
É tão perverso o mundo criado pela produção humana, que o sol surge e ressurge no correr dos dias, mas não nos comovemos com seu apelo incessante pela vida.
Não é bom negócio a paz. Por isso, é preciso produzir inquietação, desejos inconscientes, expectativas para serem frustradas logo ali adiante, lutos cotidianos por frustrações acumuladas.
E a felicidade é apenas bidimensional. Restrita a fotos e vídeos em redes digitais.
Lembrei-me de uma rival de um amor que nem existe mais. Só para saber se ela está mais feliz do que eu.
O amor acabou, nem quero mais. Mesmo assim ainda me interesso por aquela que julguei ter roubado minha chance de ser feliz. E a união deles durou só até o tempo em que ela quis denunciar à sociedade, a fraqueza narcísica do sedutor.
Mas não encontrei mais as suas redes sociais. Ela se tornou "Low Profile".
Ou seja, sim, ela está bem mais feliz do que eu. Pessoas plenas não precisam passar recibo das suas vidas nas redes. Ela Mantém apenas uma página desatualizada no seu LinkedIn.
O que aconteceu? Ficou milionária?! Morreu?
Não creio. Se assim fosse, aí sim teria sabido. Manteriam um perfil póstumo. Afinal, "ela é tão boazinha, ela é toda do bem, ela tão galera, jovem !".
E minha curiosidade permanece viva. Por onde anda a modelo que foi paixão fulminante do meu ex-amado? Aquele que eu pedia ao vento para trazer para mim e que hoje, rogo aos quatro elementos para que nunca mais eu lhe encontre.
Tão logo, retorno meu olhar para este mundo incivilizado dos homens. É mantida aqui uma guerra atróz contra o tempo, a mãe de todas as guerras.
São uns profanadores do presente. Como vou perdoar estes senhores do Capital, por cobrarem pela vida e pela morte? Como vou tirar esse rancor do peito, por eles me negarem o prazer Divino, Angelical, Atômico, de saborear todos os temperos do tempo e da natureza das coisas?
E o Criador os perdoa? Se até o Salvador eles, depois de sessões diárias de tortura, o pregaram numa Cruz. O Santo assim, é Crucificado! E ele é o Senhor do Perdão.
E por esta missão, Crucificado e Ressuscitado , tal qual o "Só" no horizonte — como diz meu amigo Cabôco — nascente e poente de todo dia.
É sempre dia e a noite, só uma sombra, nunca treva. Pois estrelas e Lua se revezam para manter o resplandecer da Luz Primeira, que deu vida à Terra e ao seu chão.
E é por isso que eu não dou bola para essa gente careta e covarde, que de Deus, só merece piedade.
E repito o que já disse lá no começo dessa prosa: O mundo me engoliu, mas eu o fiz me vomitar.
Inteira, viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz, como o diz a Tia Rita, ali!
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