O BIOMBO DO JARDIM DA INFÂNICA
A nossa infância sempre nos deixa marcas. Sejam elas ruins ou boas. Na minha história de vida, houveram mais boas lembranças desse período. Para dar continuidade às minhas vivências acadêmicas, venho relatar aqui, um acontecimento que ocorreu comigo quando ainda fazia o jardim da infância.
Mais uma manhã de aulinha no jardim da infância. Tempo chuvoso, nossa turma estava sem muita vontade de seguir o roteiro rotineiro das aulas. As tarefinhas de colorir as letras, fazer esculturas com aquela tradicional massinha de modelar, etc. Eu, particularmente, estava entediada e sonolenta. Tia Tereza, uma moça ruiva, 1,67 m (alta para os padrões daquela época) animada e doce ao mesmo tempo. O que lhe imprimia carisma que nos enchia de encanto e nos cativava.
Num canto da sala, naquela semana, haviam instalado um biombo espaçoso, de forma quadrangualar, com uma estampa colorida. E no lado de dentro uma imensa esteira de vime, com almofadas macias. Artigos muito em moda naqueles idos. Aquele novo espaço era para servir de local para repouso depois do recreio. Ao perceber meu estado disperso e bocejante, a professora me chamou pelo nome e perguntou se gostaria de me recolher lá e tirar uma soneca. Não exitei, respondi afirmativamente.
Lá fui eu, sentindo-me privilegiada por poder tirar uma soneca na sala e em pleno horário de aula, com a autorização da professora. Me deitei na esteira, enconstei a cabecinha na almofada e comecei a chupar meu dedinho. Hábito que, com o tempo me fez ter que usar aparelhos ortodônticos. Apesar do conforto, não consegui pegar no sono. Os meus coleguinhas começaram a me observar pela fresta da parte de baixo do biombo. Começaram a achar engraçado minha posição e ficavam comentando entre si e dizendo à Tia Tereza.
A partir de então, a aula não seguia mais seu rito habitual. Até que a Tia teve uma presença de espírito, com liberdade criativa e transformadora. Para tempos de sistema ditatorial e a rígida disciplina militar. O qual minha escola fazia questão de seguir fielmente. Tia Tereza convidou o restante da turma para ir, junto com ela, me fazer compahia dentro daquele espaço.
Sem exageros, foi um dos dias mais felizes da minha infância e dos meus tempos de escola. De repente estávamos todos lá, em círculo, sentadinhos de mãos dadas. E a Tia comandando a brincadeira - com a maestria própria de seu status pedagógico. Cantamos cantigas de roda, brincamos de "gata-pintada", "passa-anel". Eu me sentia num conto-de-fadas. Era comum, me sentir assim na primeira infância. Aliás, como toda criança nesse período, faz a fusão entre fantasia e realidade.
Tanta alegria, inocência, união, dentro daquele quadrado largo. Não havia retenção do passado, nem inquietação com o futuro. Só aquele presente é que contava e preenchia nosso coração. A plenitude do instante, o momentum, nos afastava ali de todo o mal, guarnecidos pela paz. Estávamos livres das "redes de arrastão" tenebrosas que assolavam nosso país e ameaçavam tirar nossa coragem para seguir o novo. Revendo aquela imagem agora, como me sinto imensamente grata ao Tempo Rei. Pois são coisas assim, singelas, que tantas vezes nos passam desapercebidas. São elas, sinais que a vida nos mostra, para que a gente acorde para o presente precioso*. De modo que não nos demos por vencidos quando chegam os infortúnios. Pois quando tudo parece tenebroso demais, desconfie. A vida é simples e bela. E há sempre tesouros nos esperando para serem descobertos. Quem tem olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para sentir, cabeça para se guiar, sempre se encontra consigo mesmo e acha seu quinhão, seu jardim. Mais tarde ou mais cedo.
* O presente precioso, Spencer Johnson. Ed.Record.
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Num canto da sala, naquela semana, haviam instalado um biombo espaçoso, de forma quadrangualar, com uma estampa colorida. E no lado de dentro uma imensa esteira de vime, com almofadas macias. Artigos muito em moda naqueles idos. Aquele novo espaço era para servir de local para repouso depois do recreio. Ao perceber meu estado disperso e bocejante, a professora me chamou pelo nome e perguntou se gostaria de me recolher lá e tirar uma soneca. Não exitei, respondi afirmativamente.
Lá fui eu, sentindo-me privilegiada por poder tirar uma soneca na sala e em pleno horário de aula, com a autorização da professora. Me deitei na esteira, enconstei a cabecinha na almofada e comecei a chupar meu dedinho. Hábito que, com o tempo me fez ter que usar aparelhos ortodônticos. Apesar do conforto, não consegui pegar no sono. Os meus coleguinhas começaram a me observar pela fresta da parte de baixo do biombo. Começaram a achar engraçado minha posição e ficavam comentando entre si e dizendo à Tia Tereza.
A partir de então, a aula não seguia mais seu rito habitual. Até que a Tia teve uma presença de espírito, com liberdade criativa e transformadora. Para tempos de sistema ditatorial e a rígida disciplina militar. O qual minha escola fazia questão de seguir fielmente. Tia Tereza convidou o restante da turma para ir, junto com ela, me fazer compahia dentro daquele espaço.
Sem exageros, foi um dos dias mais felizes da minha infância e dos meus tempos de escola. De repente estávamos todos lá, em círculo, sentadinhos de mãos dadas. E a Tia comandando a brincadeira - com a maestria própria de seu status pedagógico. Cantamos cantigas de roda, brincamos de "gata-pintada", "passa-anel". Eu me sentia num conto-de-fadas. Era comum, me sentir assim na primeira infância. Aliás, como toda criança nesse período, faz a fusão entre fantasia e realidade.
Tanta alegria, inocência, união, dentro daquele quadrado largo. Não havia retenção do passado, nem inquietação com o futuro. Só aquele presente é que contava e preenchia nosso coração. A plenitude do instante, o momentum, nos afastava ali de todo o mal, guarnecidos pela paz. Estávamos livres das "redes de arrastão" tenebrosas que assolavam nosso país e ameaçavam tirar nossa coragem para seguir o novo. Revendo aquela imagem agora, como me sinto imensamente grata ao Tempo Rei. Pois são coisas assim, singelas, que tantas vezes nos passam desapercebidas. São elas, sinais que a vida nos mostra, para que a gente acorde para o presente precioso*. De modo que não nos demos por vencidos quando chegam os infortúnios. Pois quando tudo parece tenebroso demais, desconfie. A vida é simples e bela. E há sempre tesouros nos esperando para serem descobertos. Quem tem olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para sentir, cabeça para se guiar, sempre se encontra consigo mesmo e acha seu quinhão, seu jardim. Mais tarde ou mais cedo.
* O presente precioso, Spencer Johnson. Ed.Record.

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