"Se as cores se misturam pelos campos, é que flores diferentes vivem juntas"*


Em meio a esse movimento de fuga do caos por que passam em seus países de origem, congoleses, somálios, senegaleses, haitianos, sírios, etc. A lista de refugiados é grande. A reação dos povos dos países para onde eles buscam abrigo vem sendo motivo de debate em todo tipo de mídia.
Há países em que a recepção a esses imigrantes não é nada boa. Não vejo necessidade aqui de citá-los. Quem vem acompanhando as notícias a esse respeito já sabe dos quais se tratam. E, apesar de não concordar com tal atitude xenofóbica, entendo que ficar apontando de maneira revoltosa para eles, seria colocar mais lenha na fogueira. Mas o que diria aos cidadãos desses países e aos seus governos se tivesse a chance? Em discurso, lhes contaria uma antiga história de família.
 Lá no sertão da Paraíba, houve um período de grande seca. A fome assolou toda a população. Minha bisavó e seus irmãos conseguiram fazer uma reserva de alimento, mas que só dava para suprir sua família.
Certo dia, eles estavam preparando o almoço quando, de repente, uma senhora com seus filhos que lhe seguravam a mão, bateu em sua porta. Carne e osso, com aparência de estar há vários dias sem comer. Pediu em desespero, um prato de comida para si e para seus filhos.
Todos da casa ficaram comovidos com a situação daquela senhora, que era já conhecida deles. Mas realmente, a comida era contada, não ia dar para compartilhá-la com ela e seus vários filhos. Foi um momento sofrido, de grande dilema. Eles teriam que deixar de comer para alimentar aquela outra família. Se entreolharam se perguntaram o que fazer? Fazia parte de seus princípios não negar um prato de comida a quem quer que fosse, cristão ou pagão.
Tia Zefa, uma das irmãs da minha bizavó, uma paraibana de temperamento forte, sem papas na língua e cheia de corajem em suas decisões e ações. Pessoa que tinha um senso de justiça apurado. Foi então que ela em tom solene e marcante falou: "Minha gente, Deus tem nos dado o bastante, pra nós consegui se mantê. Essa mulé, mãe de família,  nossa vizinha, tá aperreada, passando situação. Bateu na nossa porta, pedindo caridade, e a gente num pode lhe negar. Vamo lhe dá de cumê a ela e aos seus filho. Tem nada não, a gente cede a esses pobre o almoço, e vamo tê fé em Deus, que Deus provém. Deus põe, Deus dispõe a todos ".
Ficou decido que cederiam o almoço para aquela família necessitada. A senhora e seus filhos famintos puderam, pelo menos naquele dia, fazer uma boa refeição. Eles aínda lhe deram um saco de fubá. Ela agradeceu e como todo bom sertanejo, lhes desejou que Deus lhes cobrisse de bençãos e que nunca lhes deixasse faltar o pão. Se despediu com um pequeno aceno.
Pouco tempo depois, bateram na porta novamente. Tia Macionila, foi quem replicou dessa vez "Ai, meu Jesus amado! Mais alguém pra pedi..." Todo mundo ficou foi boqueaberto, quando minha bisavó, Da. Severina, abriu a porta e atendeu a um certo senhor. Com um sorriso solar, embora com alguns dentes lhe faltando, de chapéu na mão, saldou-a como se tivesse vindo de uma festa. "Louvado seja nosso Sinhô Jesus Cristo!" "Pra sempre seja Louvado!" Da. Severina respondeu surpresa com tanta alegria em dias tão austeros.
E o simpático mensageiro prosseguiu: "Vim, em nome de Coroné Fulano de Tá cunvindá a famía toda pra cumê uma buchada de bode! Se apresse pra num esfriá". E deu umas gargalhadas curtas e roucas.
A fé de Tia Zefa e a obediência dos seus irmãos ao seu conselho oriental, seu senso de caridade, afinal havia sido recompensado pelo Universo.

Depois de proferir essas palavras, eles poderiam não compreender de todo e me achar ingênua. Não é tão simples assim o conflito internacional. Não é apenas uma senhora faminta com seus filhos. São milhares de famílias, precisando de tanto. Nossos países não dão conta de tanta gente para suster. Nós já temos dificuldades para garantirmos moradia e emprego pros nossos cidadãos.
Eu ainda argumentaria, que onde come um, comem dois e três e por aí vai. Com boa vontade tudo se ajeita. Os governos, geralmente, são feitos por pessoas inteligentes. Podem buscar e criar soluções. Com boa diplomacia os conflitos se resolvem. É simples assim. Não quero dizer com isso que é fácil. Mas, de certeza, é simples. Nesse tempo de vida e de planeta Terra que tenho, cada vez mais vejo que somos mais dependentes uns dos outros do que sequer imaginamos.
Agora vou citar uma cidade em especial que está fazendo uma diferença com uma ação positiva diante desse conflito: Milão na Itália. Vi recentimente a notícia de que setores da moda de lá estão empregando refugiados de vários países, dentre os quais, os acima citados. Eles
estão fazendo cursos de confecção de roupas de grifes consagradas, como por exemplo a Dolce & Gabana. Soube que aqui no Brasil também há ações do governo e de setores não governamentais como da Igreja Católica para atender os refugiados.  Estão vendo?! eles estão seguindo a mesma linha da Tia Zefa. Aquela minha tia Zefa...


Paz profunda a todos nós humanos.

*Trecho da letra Pensamentos e Roberto e Erasmo Carlos.

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