O CABELEREIRO E SUA PANELADA DE CALÇADA
Há tempos atrás, tive um pequeno barzinho, onde servia petiscos e lanches. Meus vizinhos eram figuras bem interessantes, dignas de servir de inspiração para personagem de boa ficção. Então, um dia, aconteceu algo inusitado, que pensei comigo mesma que merecia de mim uma boa atenção. Percebi o momento oportuno. Resolvi treinar minha aprendizagem de prática literária.
Foi então que botei a 'imagina-ação' para funcionar e arrisquei essa crônica aí abaixo.
foto: infoescola.com
O sol ainda não havia se posto no horizonte e já estava ele, a fazer o fogo com alguns pedaços de lenha, carvão e uns tijolos ao redor. Já pela manhã, havia ido ao mercado para comprar os igredientes para o preparo da "panelada". Estava satisfeito e contente; pois, o motivo de tal empenho, era a comermoração de mais um aniversário.
Todos aguardavam o evento com grande espectativa, pois o que não falta ao aniversariante é popularidade. Com seu jeito desbocado, comunicativo e ginga de bom malandro faz amigos onde chega. Seu salão sempre está cheio de clientes fiéis.
A panelada já estava no fogo, encorpando, a apurar o tempero para ser saboreada no dia seguinte, em meio a muito pagode e brega, seus ritmos preferidos.
A iguaria estava sendo preparada na rua, em frente ao seu salão de modo a despertar a curiosidade dos transeuntes. Aos poucos, vinham chegando os vizinhos, para conferir a feijoada original e dar, cada um, seu comentário. O boracheiro, Zé Luís, entre uma câmara de ar e outra, ia atocalhar a panela. Cada cliente que chegava para cortar o cabelo ou fazer a barba, passava um "rabo de olho" para o caldeirão que já começava a ferver e exalar um apetitoso aroma.
Já próximo de encerrar o expediente do salão, chegou uma morena de roupa provocante. Com sua exuberância, foi a única a conseguir desviar a atenção do pessoal no cozido para sua beleza brejeira.
Mais tarde, chegou Madson (vulgo Mi), o eletricista de auto. Com seu chevete verde, a que ele batizou com um nome próprio, "Rodrigo". Seu carango velho, tinha um escape barulhento que lhe garantia sempre que sua chegada fosse percebida por todos. Espalhafatoso como o quê, com a cabeça cheia de "cana", de olho na feijoada, para saboreá-la no domingão, certo de que teria direito a uma segunda rodada de bebida por conta do dono da festa. Artur, o outro cabeleiro do salão, sócio e colega de Tuta, ia cortando o cabelo de cada cliente compenetrado como de costume, mas sonhando em saborear aquele delicioso prato.
Manhã de domingo, pronta a panelada, foram todos festejar com o dono do salão, homenageando-lhe com muitas brincadeiras no Bar da "Zezé", minha vizinha e colega de comércio. A festa rolou domingo a fora e foi tão animada que Tuta tirou a segunda feira de folga, fechando o salão.
E eu termino essa crônica com um suspiro e o desejo de que no próximo ano ele repita tudo de novo. Pois parece que fui a única vizinha que não provou da sua deliciosa panelada de calçada.
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