Meu Orientador nas Aulas de Dança-do-Ventre
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| foto: Silêncio! Meus quadris estão falando! Cris Farah Bellydance |
Iniciar uma pós-graduação não é uma tarefa fácil. Quem já a experienciou ou experiencia sabe muito bem do que estou falando. E se a pós é do tipo Mestrado e Doutarado, é um verdadeiro "Deus nos acuda". Não, não pensem que estou exagerando e sendo melodramática. Tem dois tipos de estudante de Mestrado-Doutorado: a) os que se desesperam visivelmente; b) os que se desesperam ocultamente, "por debaixo dos panos", como um jaboti que se esconde embaixo do casco. Porém, não tem quem atravesse esse tipo de "Inferno de Dante" incólume.
Então, eu, como simples mortal que sou, não fui diferente. As dificuldades impostas pelo caráter do conhecimento acadêmico, as políticas internas de departamento, os desafios impostos pelo próprio objeto de estudo que o aluno escolhe. E outras coisas mais que ficam subjacentes, nas entrelinhas. Tudo isso gera um nível alto de estresse e angústia, cujo cerne fica mesmo, dentro do meu ponto vista, nas expectativas e retrospectivas ligadas ao nosso desempenho.
Claro, que como seres humanos, dotados de inteligência, buscamos, na nossa psique, recursos, mecanismos de defesa, para aliviar a carga emocional gerada por essas situações de desempenho. Cada aluno com seu repertório, de acordo com sua história de vida e estrutura de personalidade.
Quando estava inciando meu Mestrado, busquei uma forma de exercitar meu corpo e, ao mesmo tempo sentir prazer, fazendo uma boa higiene mental. Fui fazer aulas de dança-do-ventre. Sempre gostei de dança e tinha interesse em aprender esta arte peculiar e tão feminina. Bem, acertei em cheio. Lá, conseguia me livrar do estresse acadêmico.
Entre aulas, leituras, revisões de literatura, pesquisas de campo, encontrava-me também aprendendo os movimentos da dança milenar- básico egípcio, os "oitos" para frente, para trás, para cima, maia, camelo, redondos. Foi então que, certa noite, acabei tendo um sonho, engraçado, mas daquele tipo que o ilustre Dr. Freud explica facilmente.
Ia para mais uma aula de dança-do-ventre. Quando chegava no Espaço de Dança, lá estava, sentado numa daquelas poltronas de "papai", ninguém menos que meu orientador. Tal era o meu espanto que, logo em seguida, se transformou em desespero. "Professor, o que o Sr. está fazendo aqui?!". O que me respondeu com seu sotaque que denunciava sua origem européia. "Io vim fazere aula de dança-do-ventre tambéne!". "Como assim! O Sr. não pode fazer isso, é só pra mulheres!"- argumentei, já arrancando os cabelos. Ele retruca: "Deixeh de pré-conceito, home tambene podeh fazere dança do ventreh". A olhar sua figura bonachona, seu físico típico de homem do meditarrâneo - alto, olhos verdes, cabelos castanho-claros, bochecas rosadas, visivelmente com sobrepeso, gestos marcadamente másculos, eu desabafo. "O que é isso? O Sr. vai é me matar de vergonha. O que minha professora e minhas colegas vão dizer quando lhe virem aqui. Vou dizer que não lhe conheço. Vou ligar pra sua esposa, para vir lhe buscar''. "Sua tonta, ela não vai se importare com isso". Disse ele, fincando as pernas na cadeira e abraçando fortemente uma das almofadas persas que compunham a decoração em estilo árabe do espaço de dança. E ele dizia, "Daqui no saio, daqui ninguém me tira! Io vo me matriculare e fazere aula na sua turma, hehehehehehe" - esse "hehehe'' ele sempre digitava quando me dava orientação online.
Bom, só sei que nesse ínterim, acabei acordando, e quando percebi que era apenas um sonho, ri na cama de montão. Essa foi uma das coisas engraçadas que ocorreram naquele período. O que me faz refletir agora, que realmente, meu Mestrado, foi vivido por mim como uma aventura Dantesca, A Divina Comédia, em que consegui sair do inferno, e agora me encontro no purgatório, examinando se continuo essa jornada com o Doutorado.

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